24.6.17

How to Deal with the Police | Parents Explain





The burkini debate: Is female nudity empowering?


"The difference between the burkini and the bikini is that the burkini is not a choice. It is a mandatory thing, dictated by societal pressure," said one Farsi reader.
"We cannot stand for freedom and be selective about it - either you support her choice to say whatever she wants or you don't," wrote a reader of our English pages.

22.6.17

Onde se conta o que sucedeu a D. Quixote quando ia ver a sua senhora Dulcineia do Toboso


Onde se conta o que nele se verá


Era meia noite em ponto, pouco mais ou menos, quando D. Quixote e Sancho deixaram o monte e entraram em Toboso. Estava a aldeia num sossegado silêncio, porque todos os seus habitantes dormiam e repousavam à perna solta, como costuma dizer-se. Na noite havia uma frouxa claridade, embora Sancho preferisse que fosse completamente escura, para achar na escuridão desculpa para a sua patetice. 

Não se ouvia em toda a povoação senão ladridos de cães, que atroavam os ouvidos de D. Quixote e perturbavam o coração de Sancho. De vez em quando um jumento zurrava, grunhiam porcos, miavam gatos, cujas vozes, de sons diferentes, aumentavam com o silêncio da noite, o que o enamorado cavaleiro considerava um mau agoiro; mas, apesar de tudo isto, disse a Sancho:

— Sancho, filho, dirige-te para o palácio de Dulcineia; talvez ainda achemos acordada.

— Para que palácio tenho de seguir, diabo do raio — respondeu Sancho —, que naquele onde a vi a sua grandeza não era mais que a de uma casa muito pequena?

— Devia então estar retirada — respondeu D. Quixote — em algum pequeno aposento do se alcácer, a espairecer com as suas donzelas, como é uso e costume das altas senhoras e princesas.

— Senhor — disse Sancho —, já que vossa mercê quer, contra minha vontade, que seja alcácer a casa da minha senhora Dulcineia — esta é porventura a hora de achar a porta aberta? E será conveniente que demos aldrabas para que nos ouçam e venham abrir a porta, pondo em alvoroço e barulho toda a gente? Vamos acaso nater à porta das nossas concubinas, como fazem os amancebados, que chegam, e chamam e entram a qualquer hora, por tarde que seja?

— Achemos primeiro o alcácer — replicou D. Quixote —; que então te direi o que será conveniente que façamos. E repara, Sancho, que eu vejo mal, ou aquele volume enorme e sombra que daqui se descobre deve ser do palácio de Dulcineia.

— Pois vá vossa mercê adiante — respondeu Sancho —; talvez seja isso que diz; ainda que eu o veja com os olhos e o toque com as mãos, hei-de acreditar tanto nisso como acredito que agora é de dia.

D. Quixote foi à frente e, tendo andado uns duzentos passos deu com o vulto que fazia sombra e viu uma grande torre, e depois reconheceu que o tal edifício não era um alcácer mas a igreja principal da povoação. E disse:

— Encontramos a igreja, Sancho.

— Já vejo — respondeu Sancho. — E praza a Deus que não achemos a nossa sepultura, que não é bom indício andar pelos cemitérios a uma hora destas, e mais tendo eu dito a vossa mercê, se não me lembro mal, que a casa desta senhora há-de ficar num beco sem saída.

— Maldito sejas por Deus, mentecapto! — disse D. Quixote. — Onde achaste que os alcáceres e palácios reais estejam edificados em becos sem saida?

— Senhor — respondeu Sancho —, cada terra tem seu uso; talvez se use aqui no Toboso edificar em becos os palácios e os grandes edifícios; e assim suplico a vossa mercê que me deixe buscar por estas ruas ou becos que se me oferecem: poderia ser que nalgum canto topasse com esse alcácer, que o veja eu comido pelos cães, que assim nos obriga a correr e procurar por caminhos e carreiros.

— Fala com respeito, Sancho, das coisas da minha senhora — disse D. Quixote —, gozemos a nossa festa em paz, e não atiremos a corda atrás do caldeiro.

— Eu conter-me-ei — respondeu Sancho —; mas — com que paciência poderei aguentar que vossa mercê queira que com uma única vez que vi a casa da nossa senhora a tenha de saber sempre e achá-la à meia-noite, não a achando vossa mercê, que deve tê-la visto milhares de vezes?

— Tu fazes-me irritar, Sancho — disse. — Vem cá, herege. Não te disse mil vezes que em todos os dias da minha vida nunca vi a sem par Dulcineia, nem ultrapassei jamais os umbrais do seu palácio, e que estou enamorado só por ter ouvido falar dela e pela grande fama que tem de formos e fina?

— Agora ouço-o — respondeu Sancho —; e digo que vossa mercê nunca a viu, nem eu tão-pouco.

— Isso não pode ser — replicou D. Quixote —; que, pelo menos, já me disseste que a viste crivar trigo, quando me trouxeste a resposta da carta que lhe enviei por tua mão.

— Não faça caso disso, senhor — respondeu Sancho —; porque lhe faço saber que também foi por ouvir falar dela a imagem e a resposta que lhe trouxe; porque sei tanto quem é a senhora Dulcineia como dar um soco no céu.

— Sancho, Sancho — respondeu D. Quixote —, há ocasiões que são boas para brincar e ocasiões onde caem e parecem mal as brincadeiras. Não porque eu diga que nunca vi nem falei à senhora da minha alma hás-de tu dizer também que nunca lhe falaste nem a viste, sendo tão o contrário disso, como sabes.


/O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha, Miguel Cervantes, Relógio D'Água, p. 524 - p. 528/


16.6.17

al berto, poeta dos espelhos

«Um corpo que nunca parou de se encenar, de re(a)presentar, porque nunca parou de sofrer por essa impossibilidade de sair de si mesmo, com a escrita a querer fazer-se ex-crita. No limiar, parece ser essa a grande utopia de Al Berto: transformar o corpo em palavras, transformar a carne em linguagem, para assim se libertar da solidão ontológica, que é sempre a marca da nossa fragilidade e a omnipresença de um perigo.»


/Joana Emídio Marques, num belíssimo artigo aqui/

11.6.17

I Am Not Your Negro




What white people have to do, is try and find out in their own hearts why it was necessary to have a nigger in the first place, because I'm not a nigger, I'm a man, but if you think I'm a nigger, it means you need it.


James Baldwin

Paolo Cognetti | Dar nomes às coisas nas montanhas


Henry David Thoreau defendeu, em Walden (uma referência importante no seu romance): “A maior parte das pessoas tem vidas de desespero resignado. Aquilo a que chamamos resignação não passa de desespero crónico. Da cidade desesperada ao país desesperado, não nos resta senão procurar consolo na coragem das martas e dos ratos-almiscareiros.” Concorda?


Essa passagem é ainda mais verdadeira hoje do que no tempo de Thoreau. Os meios de comunicação atuais são sobretudo meios de entretenimento. Tenho horror à nossa obsessão por preencher cada minuto com qualquer coisa. Porque acredito que o silêncio e a solidão escondem verdadeiros tesouros. O meu maior tesouro é a escrita, que nasce do rumor e do silêncio. O maior prémio que este livro me deu foi o encontro com a solidão na montanha. Hoje, a cidade, real ou virtual, está cheia de ruído, que nos suga e nunca nos deixa ficar a sós.




“La simple compañía del otro, en las situaciones adversas, es tan necesaria como la propia vida.”





23.5.17

22.5.17

SAFO OU O SUICÍDIO

Acabo de ver no fundo dos espelhos de um camarim uma mulher que se chama Safo. É pálida como a neve, a morte, ou o rosto claro dos leprosos. E como ela se maquilha para esconder a sua palidez, tem o ar do cadáver de uma mulher assassinada, tendo sobre as maças do rosto um pouco do seu próprio sangue.
Os seus olhos cavados escondem-se para escapar ao dia, longe das suas pálpebras áridas que já nem sequer lhes fazem sombra. Os seus longos caracóis caem em madeixas, como as folhas das florestas sob tempestades precoces; todos os dias arranca a si própria novos cabelos brancos, e esses fios de seda clara em breve serão suficientemente numerosos para tecer a sua mortalha. Chora a sua juventude como uma mulher que a tivesse traído, a sua infância como uma filhinha que tivesse perdido.
É magra: na hora do banho afasta-se do espelho para não ver os seus seios tristes. Erra de cidade em cidade com três grandes malas cheias de pérolas falsas e restos de aves. É acrobata como nos tempos antigos era poetisa, porque a forma especial dos seus pulmões a obriga a exercer uma profissão que se exerça a meia altura.
Todas as noites, entregue às feras do Circo que a devoram com os olhos, ela cumpre num espaço repleto de polés e de mastros as suas obrigações de estrela. O seu corpo colado à parede, cortado pelas letras dos anúncios luminosos, faz parte desse grupo de fantasmas em voga que planam sobre as cidades cinzentas.
...

in Fogos, de Marguerite Yourcenar


28.2.17

26.2.17

«Iran's blogfather: Facebook, Instagram and Twitter are killing the web»

«Sometimes I think maybe I’m becoming too strict as I age. Maybe this is all a natural evolution of a technology. But I can’t close my eyes to what’s happening: a loss of intellectual power and diversity. In the past, the web was powerful and serious enough to land me in jail. Today it feels like little more than entertainment. So much that even Iran doesn’t take some – Instagram, for instance – serious enough to block.

I miss when people took time to be exposed to opinions other than their own, and bothered to read more than a paragraph or 140 characters. I miss the days when I could write something on my own blog, publish on my own domain, without taking an equal time to promote it on numerous social networks; when nobody cared about likes and reshares, and best time to post.

That’s the web I remember before jail. That’s the web we have to save.»



11.2.17

abismos

«Vistos de tão perto, os olhos dela pareciam-lhe aumentados, sobretudo quando ela abria várias vezes seguidas as pálpebras ao acordar; negros à sombra e azul-escuros à claridade do dia, tinham uma espécie de camadas de cores sucessivas que, mais espessas no fundo, iam clareando à medida que se aproximavam da superfície brilhante. O olhar dele perdia-se nesses abismos onde se via em miniatura até aos ombros, com o lenço que lhe cobria a cabeça e o alto da camisa entreaberta.»

Charles, o tolo apaixonado, em Madame Bovary, de Gustave Flaubert

29.1.17

Ouro

Cremaram o poeta e, com mercúrio, extraíram, das suas cinzas, ouro. Começaram então a caçar os poetas, que se esconderam no mato, que se jogaram no mar, que se abismaram nas crateras dos vulcões. Finalmente haviam descoberto uma utilidade para os poetas. Mas, quando o último deles, num grotão profundo da Cochinchina, engasgou com o próprio sangue, varado por uma lança de bambu…
 …a Lua começou a cair na Terra.

muito antes de eu sonhar com eles, centenas, em fila indiana, nas traseiras da casa grande, em noites iluminadas pela neve, descobri há dias, que já a artista os tinha avistado.


18.1.17

Uma Faca Nos Dentes: Reservado Ao Veneno

Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras

12.1.17

Libro de las preguntas

Si todos los ríos son dulces
de dónde saca sal el mar?



/Pablo Neruda, Livro das Perguntas/

8.1.17

Esquecer Fausto

Contra a cultura como leitura pobre do mundo, o sujeito de Photomaton & Vox opta por uma cosmovisão relativista e proclama a necessidade de reinventar o real: "É preciso inventar de novo o edifício palpável das convenções". A formulação é ambígua: as convenções não podem ser inventadas de novo, se inventar é negar convenções; por outro lado, considerar que toda a convenção está destinada à destruição e à renovação implica que o texto se apresente como transitoriedade: o "edifício palpável das convenções" nunca atinge consistência. Seria preciso saber se o humor "negro" herbertino alvança a criação de valores, se a empresa crítica de Photomaton & Vox se transcende numa etapa construtiva.


/Esquecer Fausto: a fragmentação do sujeito em Raul Brandão, Fernando Pessoa, Herberto Helder e Maria Gabriela Llansol, de Pedro Eiras [que adquiri primeiramente, porque continha quatro dos meus]/

19.12.16

17.12.16

Waiting to Face



















A Mulher da Esfrega

25 de Março

Do sonho que revolve o mundo cabe também uma parte à mulher da esfrega. Arrasta tudo consigo. Cai o Inverno dentro da Primavera. Engrandece-a, espalma-lhe os pés, esfarrapa-lhe os vestidos.
Está aqui a figura – está aqui outra coisa. Muda de expressão, como se fosse possível as lágrimas usarem por dentro figuras humanas, como a chuva ou os passos gastam a pedra. Aquilo dura um momento, transparece um minuto, mas esse minuto chega. Logo à submissão e à humildade se mistura um nada de entontecimento. Quase nada. Trouxe sempre consigo debaixo do xaile um resto de sonho amargo. Remoeu-o transida de frio pela vida fora, quando fez recados, aqueceu a água e rachou a lenha. É um nada e ampara-a. Atreve-se... Toda a gente precisa de qualquer estonteamento para suportar a vida. Sonho gasto que andou por todos os caminhos, com pés espalmados como recoveira. Há sonhos humildes que ninguém quer sonhar: servem à Joana que quando os usa os vira do avesso.

/Húmus, Raul Brandão/

7.12.16

telefone

“Outrora, as pessoas viam-se. Podiam perder a cabeça, esquecer as suas promessas, arriscar o impossível, convencer aqueles que adoravam beijando-os, agarrando-se a eles. Um simples olhar podia mudar tudo. Mas com este aparelho o que acabou, acabou.”

A Voz Humana

O que?…………………………. Oh! sim, mil vezes melhor. Se não tivesses telefonado morreria………………………… Não……………………… espera…………………………….. espera……………………………… encontremos uma saída…………………………… Perdoa-me. Eu sei que é uma cena intolerável, e muita paciência tens tu, mas compreende-me, querido; sofro, sofro como nunca. Este fio é a única coisa que me liga ainda à nossa vida………………………….. Anteontem à noite? Dormi. Deitei-me com o telefone……………………… Não, não. Levei-o para a cama………………. Claro, fui ridícula, mas se levei o telefone para a cama é porque ele, apesar de tudo, nos une ainda. Liga esta casa à tua casa e não te esqueças que me tinhas prometido falar. Imagina que mergulhei numa confusão de sonhos. A tua chamada transformava a campainha do telefone num som mortal e eu caía; depois, vi um pescoço branco que alguém estrangulava; depois ainda, achei-me no fundo dum mar que se parecia com o apartamento de Auteuil, ligada a ti por um tubo de escafandro e a suplicar-te que não o cortasses. Enfim, sonhos estúpidos quando se contam; mas o pior é que durante o sono eram demasiado vivos. Terrível, meu amor…………………………………………….. Porque tu me falas. Há cinco anos que vivo de ti, que és o único ar que posso respirar, que levo o tempo à tua espera, a julgar-te morto quando te demoras, a morrer porque te julgo morto, a reviver quando entras e te vejo, a morrer com medo de partires. Neste momento, respiro porque tu me falas. O meu sonho, afinal, não é assim tão falso; se desligares agora, morrerei afogada naquele mar que parecia o teu apartamento……………………………………………………………………… De acordo, meu amor; dormi. Dormi porque era a primeira vez. O médico bem disse: é uma intoxicação. Mal ele sabia… A primeira noite, dorme-se. O sofrimento distrai, é uma novidade, suportamo-lo. O que não se suporta é a segunda noite, a de ontem, e a terceira, a de hoje, a que vai começar dentro de alguns minutos, e amanhã e depois de amanhã, dias sobre dias, a fazer o que, meu Deus?



2.12.16

love

 Leonora Carrington with Max Ernst by Lee Miller, 1937




mais info aqui: artsy

sobre o nada eu tenho profundidades

A poesia é a lógica mais simples.
Isso surpreende
Aos que esperam ser um gato
Drama maior que o meu sapato.
Ou aos que esperam ser o meu sapato,
Drama tanto mais duro que andar descalço
E ainda aos que pensam não ser o meu andar descalço
Um modo calmo.

(Maior surpresa terão passado
Os que julgam que me engano:
Ah, não sabem o quanto quero o sapato
Nem sabem o quanto trago de humano
Nesse desespero escasso.
Não sabem mesmo o que falo
Em teorema tão claro.

Como não se cansariam ao me buscar os passos
Pois tenho os pés soltos e ando aos saltos
E, se me alcançassem, como se chocariam ao saber que faço
A lógica da verdade pelos pontos falsos)

A poesia está guardada nas palavras – é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.


Manoel de Barros

20.11.16

Atlas

Descubrir lo desconocido no es una especialidad de Simbad, de Erico el Rojo o de Copérnico. No hay un solo hombre que no sea un descubridor. Empieza descubirendo lo amargo, lo salado, lo cóncavo, lo liso, lo áspero, los siete colores del arco y las veintitantas letras del alfabeto; pasa por los rostros, los mapas, los animales y los astros; concluye por la duda o por la fe y por la certidumbre casi total de su propia ignorancia.

/Jorge Luis Borges, Atlas/

12.11.16

cinza

Alina Negoita

5.11.16

El desierto

Antes de entrar en el desierto
los soldados bebieron largamente el agua de la cisterna.
Hierocles derramó en la tierra
el agua de su cántaro y dijo:
Si hemos de entrar en el desierto,
ya estoy en el desierto.
Si la sed va a abrasarme,
que ya me abrase.

Esta es una parábola.
Antes de hundirme en el infierno
los lictores del dios me permitieron que mirara una rosa.
Esa rosa es ahora mi tormento
en el oscuro reino.
A un hombre lo dejó una mujer.
Resolvieron mentir un último encuentro.
El hombre dijo:
Si debo entrar en la soledad
ya estoy solo.
Si la sed va a abrasarme,
que ya me abrase.

Esta es otra parábola.
Nadie en la tierra
tiene el valor de ser aquel hombre.

blue

Nastia Sleptsova

22.10.16

CIRCUM-NAVEGAÇÃO

Em volta da flor fez
          a abelha
a primeira viagem
circum-navegando
          a esfera
Achado o perímetro
suicidou-se, LÚCIDA
no rio de pólen
          descoberto.


17.10.16

Hija del viento

Han venido.
Invaden la sangre.
Huelen a plumas,
a carencias,
a llanto.
Pero tú alimentas al miedo
y a la soledad
como a dos animales pequeños
perdidos en el desierto.

Han venido
a incendiar la edad del sueño.
Un adiós es tu vida.
Pero tú te abrazas
como la serpiente loca de movimiento
que sólo se halla a sí misma
porque no hay nadie.

Tú lloras debajo del llanto,
 tú abres el cofre de tus deseos
 y eres más rica que la noche.

Pero hace tanta soledad
que las palabras se suicidan.

23.9.16

(don't) Knock the whale out


Chia-Chi Yu

18.9.16

há colares que são coleiras

há colares que são coleiras
há mulheres que são cadelas
certos homens, cães raivosos

os cães propriamente ditos

não foram para aqui chamados
embora metam o nariz em todo o lado
farejando coisas imaginárias
e, de resto, não falam, ladram
têm com certeza razão

/Vida: Variações/

21.8.16

aço

é o aço do fracasso o que entope a goela nua. tusso. é erro crasso tentar. continuar. vilipendio minha sola do pé toda vez que ando. raspo a pegada do chão ralo. cuspo meu passo e manco. engulo o choro rascante ácido. paro. olhos bordejam o fato. pulmões inférteis sem ar.

/Vivian Pizzinga/


20.8.16

destinos #3


Saltholm island (in the Baltic sea), Sandra Šarkūnaitė



2.8.16

cavalo alado





26.7.16

A Roda

Já não tinha dores e as recordações de outros tempos pareciam
vir juntar-se à ampola que a enfermeira lhe injectara na veia.
Acomodou a cabeça na almofada, fechou os olhos, um
sono estranho andava ali por perto.
Viu-se recém-nascido na roda. A mãe a afastar-se.
– Não vás, mãe! Não vás.
Ficou dentro de um cesto. Era Fevereiro, tê-lo-ia ao menos
embrulhado nuns farrapos?
Não, era um berço de baloiço, com véus de cassa azuis,
mantinhas de lã com passarinhos bordados e as mãos finas
da mãe sempre atentas.
Mas era um cesto e diante dele desfilavam sombreados os
berços cuidados dos seus filhos, chiu, dormem!
– Esta gente o que faz aqui?
– Não está aqui ninguém. São horas de descansar!
Eram eles, eram elas. Devia ser cega aquela grafonola! O
quarto estava cheio. Todos ali à sua volta, os heróis de todas
as suas façanhas, as mulheres que devassara como um lobo
faminto, os amigos, os inimigos. Os invejosos e as putas, os
cornudos e as velhacas.

Filho de pais incógnitos, ouviste? Incógnitos!
– Fora daqui, canalha infame! – Se pudesse voltar a cabeça
para o outro lado… Mas não tinha forças. – Pulhas!
– Tem muita goela o Sr. Venâncio!
Gornem de inveja!
Ele, que nunca fora filho de ninguém, fez-se o Sr. Venâncio.
Não era cá mestre isto ou aquilo, compadre ou tiozinho. Alto
lá! Sr. Venâncio, comerciante e fiador de muito soberbo que
lhe ferrou o calote.
– Tanto filho, Sr. Venâncio!
Tanto filho. Para ele que não se importaria de ter doze,
ia a meio!
Os seus filhos! Deus os abençoasse de bons que eram. E
escorreitos. Sem vaidades, e tão lindos! Adiante, saíam à mãe,
que tinha sido uma boneca nos seus tempos.
– Está agitado! Assim vou ter que o prender à cama!
Ela outra vez, a toleirona! E ele era lá um cão para aquela
grandessíssima porca o ameaçar com cordas? Camela!
Aquietou-se, fingiu dormir e fugiu dali pra fora. Foi sentar-se
no jardim do coreto a ouvir os pássaros.

Que dias, que lágrimas, que fome. Mas que pagodes também!
Tudo tão longe e tudo ali à mão. Embaciavam-se-lhe os
olhos e aí vinha o tempo a devolvê-lo moço à força da meninice.
Sem sapatos, rotos os calções, puída a única camisola.
Filho? Filho da puta era o que lhe chamavam. A princípio
chorava, depois as lágrimas foram endurecendo como a rocha
onde secam as fontes. E fez-se um homem da raça das fragas
que não temem as intempéries mas escondem no fundo das
cafurnas a piedade sempre pronta a acolher aves e ninhos.
Começou a trabalhar na fábrica da conserva aos cinco
anos. A sua tarefa era enrolar os cigarros aos homens que não
podiam perder tempo.

– Ó fumam, ó trabalham. Vá!
E ele, com os seus dedos de passarinho, enrolava os Águia
com todo o esmero, acendia-os, puxava a fumaça e lá os
distribuía de boca em boca.
– Venâncio, saca-me daqui a beata antes que me quême
os beços.
E ele acudia sempre a correr, fumando o que restava da
saliva amarelada dos outros.


Continua aqui:edita-me


Porta Sim Porta Não, Julieta Lima 




24.7.16

das coisas belas: Ilustrações do conto: “A Salvação de Wang-Fô”, de Marguerite Yourcenar, por Joana Pinheiro


O velho pintor Wang-Fô e o seu discípulo Ling erravam pelas estradas do reino de Han.

Avançavam devagar, pois Wang-Fô parava de noite para contemplar os astros, de dia, para olhar as libélulas. Iam pouco carregados, pois Wang-Fô amava a imagem das coisas e não as próprias coisas, e nenhum objecto do mundo lhe parecia digno de ser adquirido, excepto pincéis, boiões de laca e de tinta-da-china, rolos de seda e papel de arroz. Eram pobres, pois Wang-Fô trocava as suas pinturas por um caldo de milho-miúdo e desprezava as moedas de prata. 

O seu discípulo Ling, vergado ao peso de um saco cheio de esboços, curvava respeitosamente as costas como se carregasse a abóbada celeste, pois aquele saco, aos olhos de Ling, ia cheio de montanhas sob a neve, de rios pela Primavera e do rosto da lua no Verão.
(...)


Joana Pinheiro

daqui

17.7.16

do que me faz (sempre) sorrir






Manel, és tu?

daqui

16.7.16

cefaleia (iv)

...

Quem pode pensar em tais insignificâncias se o trabalho espera nos currais, na estufa, nos estábulos? Leonor e Chango já se ouvem lá fora e, quando saímos com os termómetros e as tinas para o banho, atiram-se ambos ao trabalho como se quisessem cansar-se bem depressa, preparando o descanso da tarde. Sabemos isso muito bem, por isso alegra-nos ter saúde para podermos cumprir cada tarefa. Enquanto for assim e não aparecerem as cefaleias, podemos continuar. Agora é Fevereiro, em Maio estarão as mancúspias vendidas e nós a salvo por todo o Inverno. Ainda se pode continuar.

As mancúspias distraem-nos muito, em parte porque são cheias de sagacidade e malevolência, em parte porque a sua criação é um trabalho subtil, necessitando uma exactidão incessante e minuciosa. Não é preciso enumerar, mas isto é um exemplo: um de nós tira as mancúspias fêmeas das jaulas aquecidas - são 6:30 da manhã - e reúne-as no curral do pasto seco. Deixa-as retouçar vinte minutos, enquanto o outro tira as crias dos cacifos numerados, onde cada uma tem a sua história clínica, verifica rapidamente a temperatua rectal, repõe nos cacifos as que excedem os 37,1º e, por uma caleira de folha, leva as restantes a reunirem-se às mães, para a lactação.

Talvez seja este o momento mais belo da manhã, comove-nos o alvoroço das pequenas mancúspias e das mães, o seu rumorejante falatório sustido. Apoiados na grade do curral esquecemo-nos da figura do meio-dia que se aproxima, da dura tarde inadiável. Por instantes, temos um certo medo de olhar para o chão do curral - um quadro Onosmodium marcadíssimo -, mas passa e a luz salva-nos do sintoma complementar, da cefaleia, que aumenta com a escuridão.

(cont)

Julio Cortazar, in Bestiário

Red

Tamara Kvesitadze, Red

12.7.16

roubado à LEBRE DO ARROZAL*

Quando M. me enviou sms
a perguntar plo programa de fim-de-semana
senti a angústia da página em branco de sexta-feira
do cronista de domingo
mas depois lá esbocei este plano,
mais uma mnemónica, diria:
1.º mastigar a angústia como uma chiclete
ao som dos Táxi da altura em que a cuspia
sem qualquer preocupação com a pegada ecológica;
2.º passar pela secção dos Perdidos e Achados da PSP,
do Metro e dos STCP para ver se encontraram um
coração que há dias que não sinto o meu;
3.º listar todas as músicas de língua inglesa
que expõem um broken heart no refrão;
4.º desfazer a máxima:
«Toi, tu est un blogueur.
Moi, je suis une blagueuse.» (que construí a pensar no O'Neill)
sentindo-me digna de uma serviçal de Penélope, que as devia ter,
escondidas nas dobras da história, como escrevi a Z;
5.º rever o filme de Eris Riklis e deixar-te
sobre a tua mesinha de cabeceira este bilhete:
«Não verei o limoeiro crescer!»


Aviso ao leitor: pode começar pelo último ponto, passar ao terceiro, eliminar o segundo e acabar no primeiro. Pode mesmo não sair do primeiro. Ou passar todo o tempo no terceiro. E, se chegou até aqui, pode mesmo ignorar este poema.

Ana Paula Inácio 


*there's only 1 alice

cefaleia (iii)

...

Pensámos se não será antes um quadro de Phosphorus, porque além disso aterra-o o perfume das flores (ou o das mancúspias pequenas, que cheiram levemente a lilás) e coincide fisicamente com o quadro fosfórico: é alto, magro, gosta de bebidas frias, geladas e sal.

De noite não tanto, ajudam-nos a fadiga e o silêncio -- porque a ronda das mancúspias respeita levemente este silêncio da pampa -- e às vezes dormimos até ao amanhecer, e desperta-nos um esperançado sentimento de melhoras. Se um de nós salta da cama antes do outro, pode suceder que assistamos consternados à representação dum fenómeno Camphora monobromata, pois julga-se estar a caminhar para um certo sítio quando na realidade se está a caminhar em sentido oposto. É terrível, vamos com toda a segurança para o quarto de banho, e de repente sentimos na cara a pele despida do espelho alto. 

Rimo-nos quase sempre, pois há que pensar no trabalho que espera e de nada serviria desanimarmos tão cedo. Procuram-se os comprimidos, cumprem-se sem comentários nem desalentos as instruções do doutor Harbin. (Talvez em segredo sejamos um pouco Natrum muriaticum. Tipicamente, um natrum chora, mas ninguém deve observá-lo. É triste, reservado; gosta de sal.)


(cont)

Julio Cortazar, in Bestiário

11.7.16

«What is my life but preference for the ginger biscuit?»


A page from Beckett’s notebooks.


férias grandes #1




20 April 2016 to 18 July 2016
Galeries nationales, Grand Palais